A difícil arte da convivência!
- Grandi Rochinski
- 14 de jan. de 2017
- 5 min de leitura

Convivência, desculpem o peso da palavra, é foda!
Tente juntar dois mundos diferentes, cada um com seus princípios, seus valores já construídos durante anos, seus modos e maneiras de ver a vida completamente opostos. Então, acha fácil conciliar isso? As relações atuais são frutos de sonhos empurrados nas mentes, buscando o idealismo de perfeições que não existem.
Convivência é o que, na grande maioria das vezes, acaba com as relações, e não poderia ser diferente, afinal, as pessoas que fazem parte da mesma família, que tiveram a mesma criação, as mesmas oportunidades e experiências similares não conseguem conviver sem discordâncias, como é que dois estranhos vão conviver todos os dias sem discordar? É querer o impossível!
“Nem todo mundo é igual…” é uma frase que sempre utilizamos para expressar que, embora todos sejamos seres humanos, apresentamos diferenças fundamentais que vão desde a própria etnia até o modo de pensar.
Saber conviver com as diferenças é um desafio. Exige habilidade e sabedoria para lidar com situações e pessoas que possuem opinião divergentes. Tanto na vida pessoal, na internet ou nas redes sociais, diariamente presenciamos desavenças de toda sorte e natureza, desde pequenas desavenças até ofensas mais serias, que podem levar a outras consequências. É preciso tomar muito cuidado.
Veja um exemplo:
Uma mulher chega em casa de TPM, após horas perdidas no trânsito, depois de um dia exaustivo de trabalho, escuta, em tom de acusação, um “mas não tem nada pro jantar?”, nesta hora você quer é trucidado! Tentando se controlar, você diz que não teve tempo e pergunta porque não tentou fazer alguma coisa, escuta a resposta, com ar de quem acha a pergunta um absurdo, que isso é coisa de mulher, então você começa a questionar como, afinal, é possível conviver com alguém assim. Mas também poderia ser o contrário.

Algumas pessoas possuem uma mania irritante de querer serem os donos da verdade, não ouvem ninguém, não respeitam
ninguém e tudo que destoa da sua opinião nem merece ser analisado, muito pelo contrário, será prontamente rechaçado. Cada pessoa é única, ninguém é obrigado a concordar com nossa opinião, mas todo cuidado é pouco, existe uma linha muito tênue entre discordar e ofender.
E a coisa continua, veja isso: não é só o jantar… É a tampa do vaso que não abaixa, é a toalha molhada na cama, é a pia do banheiro imunda, é a briga pelo controle remoto, é a bagunça na casa toda. Um acha que a obrigação seja sempre do outro.
Tem mais ainda: os amigos/amigas insuportáveis que um ou outra tem, a mania de criticar, o apoio que dá a quem não deveria, o fato de parecer não “te escutar”, não te entender e, sobretudo, de nunca pedir desculpas. É tudo isso e muito mais dos dois lados, dele e dela. Afinal, são dois seres diferentes. Mas terá sempre um dos lados mais flexível.

Todos sabem o quão difícil é conviver com pessoas que vivem divergindo das nossas opiniões. Por mais errada que a pessoa possa estar, que sua opinião seja a mais absurda possível para todos, ela sempre pensará no seu íntimo que está certa, os outros é que estão errados.
Mas, o que fazer diante desse “muito mais”? Uma escolha… Você vai ter que escolher se quer ou não conviver com essa pessoa, e antes que “parta pra outra”, devera saber que: a mudança será só de endereço, porque, em maior ou menor grau, todo mundo vai discordar sempre, e não tem como ser diferente.
O que esperar do outro?
Para conviver você precisa saber exatamente o que esperar do outro, e aceitá-lo como ele é, caso contrário a convivência se tornará um caos e, pouco a pouco, a relação acaba indo pelo ralo. Falando em “saber o que esperar do outro”, é muito importante que esse “outro” saiba exatamente o que esperar de você, e pra isso você precisa mostrar realmente quem é, porque aí ninguém vai poder jogar nada “na cara” de ninguém.
Ora, se não concorda com determinada opinião, registre de forma clara sua posição, sem a perspectiva da obrigatoriedade de demover o outro da ideia inicial. Em vez disso proponha uma reflexão do tipo: fulano, aceito sua opinião, mas você não acha que se fosse desse outro modo seria melhor? Com isso você abre caminho para o diálogo, se a pessoa responder com um “talvez” continue o diálogo, já se a pessoa se mostrar radical no ponto de vista, nem perca seu tempo, será inútil. Apenas finalize a conversa com um: “aceito sua opinião, mas não concordo”.
É claro que, para conviver, precisamos fazer concessões, entrar em “acordos”, e isso exige maturidade, já que ninguém quer “dar o braço a torcer”. Mas, sem esse jogo de cintura não há relacionamento que funcione!
É dizer, para conviver, você precisa conhecer e aceitar as limitações do outro, e vocês precisam entrar em um “acordo”, senão não tem como fazer a coisa funcionar!
Cobra-se muito que o outro funcione como um espelho, que sinta como nós, que aja como nós, que pense como nós. Essa necessidade do igual, do semelhante, que na maioria das vezes não existe, faz com que o ser humano tenha tanta dificuldade em aceitar as diferenças.
Elogiar um ao outro faz bem para o corpo e para a alma. Quando elogiamos alguém recebemos em troca sorrisos, felicidades e gratidão, se for ao contrário, a testa enruga, você se torna uma pessoa amarga e sem amigos. Porque não começar pelo elogio?
Para conviver bem em grupo é preciso que aja empatia. Porque a falta de empatia não deixa as pessoas crescerem e progredirem na vida, não temos mérito nenhum em tratar bem a quem nos trata bem também, mas sim em tratar bem a quem nos trata mal. É preciso aceitar a opinião, o ponto de vista diferente do seu e adotar uma postura de tolerância como princípio básico de mediação das relações interpessoais.
Não aceitar as diferenças gera conflitos.
Estes conflitos podem aparecer em qualquer área da vida: social, familiar, trabalho e afetiva. Eles podem existir em relação ao outro ou em relação a nós mesmos quando não sabemos como agir numa determinada situação.

Vivenciar conflitos é inerente à vida humana. Exterminar o conflito (crise, problemas) não seria a solução, isto seria impossível.
Não deixe que a falta de empatia se confunda com a “inveja” para tentar diminuir o outro, tirar-lhe o brilho através das críticas e comentários maldosos. Vera Loyola diz que “O verdadeiro amigo não é o que é solidário na desgraça, mas o que suporta seu sucesso”.
Pratique a empatia, se coloque no lugar do outro antes de fazer um comentário, e não esqueça que cada ser é “único” se você se comparar com os outros, você se tornará presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém inferior e alguém superior a você” (DESIDERATA).
Conviver é uma antiga arte que ainda precisamos aprender a apreciar. Conviver significa viver junto, ocupar um espaço comum, compartilhar o pão, comungar.

Entre todos os desafios que temos a vencer para conquistarmos o estado da convivência, o mais premente e que fundamenta toda a experiência de convívio é a tolerância. A capacidade de aceitar o outro tal como ele é, compreendendo que sua distinção, sua peculiaridade, é também o diferencial que dá o real valor da existência de cada um.
As diferenças existem não para nos compararmos, mas para nos complementarmos, para nos unirmos e aproveitarmos as qualidades no outro que, em nós, são deficientes.
Grandi Rochinski
Psicanalista Clínico e Psicoterapeuta.





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